Todas as crianças deviam ser felizes.

Todas as crianças deviam merecer ter uma palavra. Uma escolha. Uma voz.

Todas as crianças deviam decidir como querem passar o tempo na sua primeira escola, o útero.

 

Ouvi dizer que há dias que tem sabor a doce e outros dias que tem sabor a amargo. Quando tem sabor a doce, há uma sensação de segurança e proteção. Tranquilidade. Já quando tem sabor a amargo, eu sei, há um vazio que assusta. Há um movimento de ondas que fazem o meu pequeno coração bater mais forte e sentir-se frágil e inseguro. Abandonado.

Esta casa, o útero, carrega uma história.

Uma história que te acompanha até à morte. Até às mortes. Em cada morte, há um renascimento.

Esta história diz que existe uma ligação muito forte e complexa entre uma mãe e um bebé que se ligam e nutrem através de um cordão. E este cordão, por sua vez, é alimentado por vários caminhos.

Externos e internos.

A forma como é alimentado tem impacto no novo ser que nasce.

 

Todos os bebés mereciam trazer almas limpas.

Todos os bebés mereciam ter filtros.

Mas são puros. Tão puros que cheiram emoções. Todas. Tão inteligentes que aprendem tão cedo. Tudo.

E fica guardado, lá bem no seu inconsciente, para que possam aceder mais tarde em momentos que não sabiam desse lugar.

 

Todos os bebés deviam ter pais conscientes e amorosos. Porque pais inconscientes e desconectados trazem feridas que doem. Feridas que custam a sarar. E que podem perdurar durante anos até que fiquem numa leve cicatriz. Mas não. Não é assim. Vens a este mundo para aprender. E que aprendizagem. Ufa! E tudo bem.

Os pais já foram filhos e os filhos já tiveram pais. Há uma linhagem que se estende. Ninguém sabe aquilo que não aprendeu e que não viu, muito menos aquilo que não quer aprender nem quer ver.

 

E já que falo em ver. Peço-te que não me tapes os olhos.

Deixa-me ver o canal por onde saí.

Deixa-me sentir.

Não me escondas o teu sexo.

Não me escondas o meu sexo.

Não me escondas nem me mintas o prazer.

O prazer do toque, do cheiro, dos fluidos, das paredes macias da tua vagina, de ti. É isto.

 

Todos os bebés deviam perceber que já nascem sexuados.

E que a sexualidade começa no prazer de respirar uma nova vida.

Que a noção e conexão com a sexualidade começa aqui. E é a partir daqui que o prazer floresce.

 

A sexualidade nada é mais do que uma energia que te motiva a procurar amor, contacto, ternura e intimidade, que se integra no modo como te sentes, moves, tocas e és tocado, é ser-se sensual e ao mesmo tempo sexual. E ao influenciar pensamentos, sentimentos, ações e interações, influencia também a tua saúde física, mental e emocional.[1]

 

Prazer, sexualidade e respirar uma nova vida.

Sim. Respirar.

Aprendi também que a forma como respiras pela primeira vez sozinho, diz-te como vais respirar ao longo da tua vida. E cada respiração conta bloqueios que podem ser limpos.

 

Cada respiração mostra como encaras a tua vida, porque foi assim que a recebeste pela primeira vez.

Com medo dela, ou com segurança de que a queres.

Eu sei.

 

A vida no casulo, nessa primeira casa chamada de útero, fez-me acreditar que passar pelo canal da sexualidade, dito prazer, e chegar até ti seria um desafio.

Confesso que o meu cérebro reptiliano arranjou forma de o meu corpo dar voltas e voltas até que o nosso cordão me sufocasse.

Talvez fosse mais fácil sentir dor numa cama húmida e quente, do que sentir dor numa cama seca e fria. Mas estava na hora. E cá veio a primeira respiração. Dolorosa, sofrida, sufocante, inconsciente.

 

E é assim que tu vês a vida, porque essa memória fica guardada naquele espacinho chamado hipocampo[2], o qual vais aceder em alturas que te remetam para aquele momento.

 

E cada vez que a liberdade me foge pelos dedos, lá vou eu lembrar-me do que me sufoca.

E cada vez que que há um sufoco, um aperto, lá vou eu lembrar-me que respirar é difícil.

Mas não é. E gostava que todas as crianças aprendessem que respirar pode ser leve e que se pode aprender.

A respiração é a base da vida.

Traz-te energia vital para todas as tuas células.

Acalma-te. Faz-te ganhar saúde.

 

Então aqui vai: toca-te com a respiração do prazer.

[1] OMS, 2012

[2] É uma estrutura localizada nos lobos temporais do cérebro humano, considerada a principal sede da memória e importante componente do sistema límbico (responsável pelos sentimentos e emoções).

Com Amor,

Carina

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