Hoje partilho contigo um excerto interessante de um livro que gostei muito. Chama-se mulheres que correm com os lobos, escrito pela Clarissa Pinkola Estés.

Nas entrelinhas, este excerto passa uma mensagem sobre um tema sensível e que traz consigo vulnerabilidade. Mãe-Mulher-Mãe. Antes de seres mãe, és mulher. E depois de seres mãe, continuas a ser mulher. E nem sempre é fácil assumir este papel. E nem sempre é fácil despir camadas. E aceitar que efetivamente existiu um renascimento. Há um bebé que nasce e uma mãe (família) que renasce. Que se reajusta a uma nova realidade. Há uma metamorfose. A mulher despe uma camada de si, fica nua e floresce de novo numa nova mulher. Esse florescimento pode ser mais ou menos desafiante, mais ou menos duradouro mas acontece.

E todo este florescimento, quando com filtros e crenças dos nossos ancestrais, tem impacto na próxima geração. Espera-se sempre que os filhos sejam perfeitos e que se moldem às expectativas dos pais. O que não é nada benéfico. Muito mais se espera das filhas mulheres: perfeição, submissão. A não-liberdade de expressão e a proibição de continuar ao longo dos anos com a sua alma pura e selvagem (e aqui selvagem não é não-educação, é a essência, pureza e natureza com que nasce) terá impacto a vários níveis futuros.

 

Aqui ficam as palavras da Clarissa:

 

Nas fantasias de alguns pais, qualquer filha que tenham deverá ser perfeita e refletirá apenas os seus comportamentos e valores. Se a criança for selvagem poderá, desgraçadamente, ser sujeita, vezes sem conta, a tentativas parentais de “cirurgias” psíquicas, num esforço de recriá-la e, principalmente , de alterar o que a alma da criança lhe pede. Embora a sua alma peça para ver, a cultura onde ela se insere requer que seja cega. Embora a sua alma deseje falar, ela é pressionada a silenciar-se.

 

Nem a alma nem a psique da criança podem conciliar isto. A pressão para ser “adequada”, seja qual for o padrão definido pela autoridade, pode levar a criança a fugir, ou a enterrar-se, ou a vaguear durante muito tempo à procura de um local onde encontre alimento e paz.

A pessoa deve desenvolver uma força adequada, não uma força perfeita, mas uma força moderada e útil-para ser ela própria e encontrar o lugar onde pertence, podendo então influenciar de forma magistral a comunidade exterior e a consciência cultural.  O que é uma força moderada? É a força que se tem quando a mãe interior que cuida daquela pessoa não está cem por cento confiante nos próximos passos a dar. Setenta e cinco por cento confiante é o suficiente, é uma boa percentagem. Devemos lembrar sempre que uma planta está em flor quando esta está meio aberta, três-quartos aberta, ou totalmente aberta.

Na psicologia analítica chama-se complexo materno a todo este labirinto. É um dos aspectos nucleares da psique feminina e é importante reconhecer a sua condição, fortalecer certos aspectos, corrigir outros, desmantelar outros e recomeçar, caso seja necessário.

A mãe verga aos desejos da aldeia em vez de tomar o partido do seu filho. Até mesmo na actualidade, as mães actuam ainda segundo os medos seculares bem fundamentados das mulheres que as precederam. Ser excluída da comunidade é ser ignorada e olhada, no mínimo, com desconfiança. Uma mulher que viva num tal ambiente tentará quase sempre moldar a sua filha de modo a que esta se comporte “adequadamente” no mundo exterior – esperando assim salvar a filha e salvar-se a si própria do ataque .

Um caminho a adoptar é o seu próprio desejo de ser aceite pela comunidade da aldeia. Outro é a autopreservação. O terceiro é responder ao medo de que ela e o seu filho sejam castigados, perseguidos, ou mortos por habitantes da comunidade. Este medo é uma resposta normal a uma ameaça anormal de violência psíquica ou física. O quarto caminho é o amor instintivo da mãe pelo seu filho e a sobrevivência desse filho.

Quando as pessoas se deixam ir abaixo, geralmente caem em um dos três seguintes estados emocionais: confusão (sentem-se confusas), desordem (sentem que ninguém compreende devidamente o seu suplício), abismo (uma repetição emocional de uma ferida antiga, geralmente uma injustiça não reparada e ainda por esclarecer que sofreram na infância). A forma de levar uma mãe a sentir-se arrasada é dividi-la emocionalmente.

Este círculo de mulher-para-mulher era dantes o domínio da Mulher Selvagem e era de entrada livre; qualquer uma.podia ter acesso. Mas tudo o que nos resta nos nossos dias é uma pequena festa pré-natal a que dão o nome de baby-shower, uma reunião de umas duas horas que não se prolonga por toda a vida da mulher enquanto mãe, e onde, nesse curto espaço de tempo, se concentram todas as piadas sobre nascimentos, os presentes para a futura mãe, e todo o tipo de histórias relacionadas com o parto.

Em quase todos os países industrializados dos nossos dias, a jovem mãe encontra-se muito solitária na gravidez, no parto e ainda nos cuidados a ter com o recém-nascido. É uma tragédia de enormes proporções. Uma vez que muitas mulheres são filhas de mães frágeis, mães crianças, mães órfãs, muito possivelmente possuirão, também elas, um estilo interior muito similar ao das suas mães, conduzindo, então, uma “maternidade por conta própria”.

Por vezes, a mãe frágil é, ela própria, um cisne que foi criado entre patos. Não conseguiu encontrar a sua verdadeira identidade a tempo de vir beneficiar os seus filhos. Assim, quando a sua filha adolescente se vê a braços com o grande mistério da natureza selvagem do feminino, também ela experimenta problemas de identidade e ímpetos de cisne. A busca de identidade da filha pode mesmo encetar, finalmente, a viagem “inaugural” da mãe em busca do seu Eu perdido. Assim, naquela casa, entre mãe e filha, haverá dois espíritos selvagens nas profundezas, de mãos dadas e com esperança de virem ao de cima.

Mesmo que tenhas tido a melhor mãe do mundo, podes acreditar que acabou por ter mais do que uma. Como digo muitas vezes às minhas filhas “vocês nasceram de uma mãe mas, se tiverem sorte, terão mais do que uma pela vida fora”. E, entre todas elas, encontrarão grande parte daquilo que precisam.”

A mãe selvagem e conhecedora é uma escola onde nascemos, uma escola onde simultaneamente aprendemos e ensinamos, e tudo isto para toda a vida. Quer tenhamos filhos, quer não, quer tratemos de jardins, ou nos dediquemos à ciência ou ao claramente mundo da poesia, vamos nós para onde formos, encontrar-nos-emos sempre com a mãe selvagem no nosso caminho.  E é assim que deve ser.

Com Amor,
Carina

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