Silêncio, repressão, abuso, vazio e violência.

São estas as palavras invasoras quando penso na minha história. E foi precisamente esta história que me levou à escolha do tema do trabalho que fiz “o meu corpo nas vossas mãos” e do subtema “feminismo e representações sociais do corpo”.

Desde cedo me foi incutido que a mulher é submissa, que não tem posse do seu corpo e que é comandada pelo homem, como se de uma marioneta se tratasse. À medida que me fui ganhando maturidade, comecei a perceber que as mulheres afinal já tinham conquistado a sua liberdade e que podiam ter voz na sociedade. Mas a minha e a de quem me pariu, ainda não se ouvia. Cresci então com a ideia de homem controlador e mulher submissa e durante algum tempo repeti uma crença e um padrão que observava: oferecer o corpo para o prazer do outro, ou seja, permissão de abuso sexual (que não é apenas pela penetração) e permissão de violência psicológica por medo e falta de autoestima.

 

Portanto, foi uma conquista e desconstrução gradual desafiantes e interessantes.

Neste sentido, enquanto profissional de saúde, sinto uma enorme empatia por todas as mulheres (e homens). O meu foco é promover a capacitação que a mulher/homem tem para dar voz ao seu corpo, pois uma nova consciência nasce de um lar mais “empoderado” e amoroso.

De referir que apesar de já existirem muitas mulheres que se afirmam como uma entidade individual e livre, ainda há uma grande percentagem que se vê como submissa e “desempoderada”, na medida em que se castra no prazer e na voz de poder parir um novo ser. Há quem afirme “portei-me bem, não gritei durante o parto”. Mas o que é portarse bem aos olhos da sociedade? É abafar a dor e amarrar as mãos à mulher? Ou é permitir que ela se exprima na sua forma mais “selvagem” e natural? A violência obstétrica existe de facto, e é importante refletirmos sobre ela.

O movimento feminista político luta para o fim da valorização de um género sobre outro, faz elevar questões de modo a mostrar qual o verdadeiro papel da mulher na sociedade e tem como principal objetivo promover a igualdade entre os sexos. Sendo muitas vezes confundido com o femismo, que é a supremacia do género feminino, sendo assim, o sinónimo de machismo. Assim, feminista é aquele que tem iniciativa e promove um bem comum, ansiando sempre pelos devidos direitos ao indivíduo, seja ele masculino ou feminino.

Assim, definindo Feminismo, nada tem a ver com eliminar o homem, mas sim em ter uma voz ativa na sociedade tal e qual como ele. Ou seja, o feminismo é um movimento que luta pelos direitos e pela igualdade de género.

A estratégia política do feminismo, para além da luta pelos direitos, consistia em resgatar a autonomia reprodutiva do corpo das mulheres com a finalidade de romper com o controlo social do qual eles eram alvo. Afirmavam “o nosso ventre pertence-nos”; “um filho se eu quiser, quando eu quiser”, que significava ter o poder de escolher o momento em que queriam viver a maternidade, na vivência da sexualidade e no domínio dos seus corpos. Reconhecer os direitos sexuais e reprodutivos femininos como direitos humanos é primordial para assegurar seu bem-estar físico e emocional, pois é questão de saúde.

As mulheres incluem termos e frases como “desumanização”, “abuso”, “perda de autonomia” e “perda da capacidade em decidir livremente sobre os seus próprios corpos e sexualidade” o que vem reforçar este tipo de violência como violência de género, e especificamente violência sexual.

Desde o patriarcado ao século XXI: de um lado, uma mulher pura e recatada, virgem quando solteira, e, quando casada, devotada e dependente financeiramente do esposo; e, de outro lado, uma mulher sensual e provocante, estável profissional e financeiramente, mas submetida às imposições da comunicação social.

Então, por um lado, antigamente, tínhamos uma mulher que era obrigada a calar o seu corpo e, por outro lado, atualmente uma mulher que acaba por se anular da mesma forma, pois sendo alvo desta performance “perfeita”, molda o seu corpo face ao que a sociedade “impõe”. O que tem impacto na forma como se fazem sentir mulheres e como subtilmente se permitem ser abusadas. E agora entramos na questão da VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA.

A experiência do parto parece ser profundamente sexual, uma das razões pelas quais a violência obstétrica é interpretada por algumas mulheres como nada menos do que violação. Isto acontece, porque o trabalho de parto em vez de feminilizado e sexualizado, é simplesmente, e expresso por mulheres, uma transformação em corpos mecânicos, reduzidos a máquinas de carne controladas e gerenciadas por autoridades médicas.

Cadávers são, paradoxalmente, os corpos para os quais a medicina olha para aprender sobre as patologias de corpos vivos e descobrir curas potenciais para essas patologias. Isto faz sentido, então, que o melhor paciente é aquele que retém essa passividade, essa falta de movimento ou liberdade, durante o exame médico e/ou intervenção.

Outros aspetos causais que consistem em fatores propícios para a ocorrência de situações de violência obstétrica são o desconhecimento das mulheres sobre o próprio corpo e, em uma discussão de género, a assistência ao parto promovida por homens, também desconhecedores do corpo das mulheres.

A violência obstétrica é vista como violação de género que congela os corpos e os faz sentir desempoderados, porque é que algumas mulheres banalizam estes momentos? Será a desconexão ao corpo tal que a mulher não acredita que tem o poder de parir e escolher o desfecho do seu próprio corpo? Bem, questões que possivelmente demorariam mais a responder, mas cabe aos especialistas na área, capacitar a mulher neste sentido.

A forma como a mulher vive e encara a sua corporeidade e a forma como se deixa influenciar pelas crenças patriarcais e pelos impostos da comunicação social vai determinar a forma como se faz sentir e se afirma mulher. Portanto, o movimento feminista teve um papel preponderante na forma como a mulher reconstruiu o seu próprio corpo, contudo importa referir que com a evolução dos tempos e da tecnologia, cada vez mais é exigida uma imagem perfeita de se ser mulher. Isto é, a conquista foi tal que se espera uma mulher independente, empoderada, magra, forte, capaz de parir, capaz de realizar as tarefas domésticas, capaz de dar prazer, o que pode gerar sentimentos de culpa ou de não suficiência, por parte da mulher.

O peso da performance que é colocado pode levar a mulher a silenciar a sua voz quando é submetida a violência no seu corpo, como por exemplo nos casos de violência obstétrica.

Neste sentido, torna-se fundamental que a mulher se permita viver a sua liberdade de forma leve e aceitar a verdadeira igualdade. Saber que é detentora de prazer independentemente de ter um parceiro/a ou não e que merece respeito no corpo. Não deve sentir-se culpada nem menos mulher caso não se sinta capaz ou não queira realizar algo que lhe é desconfortável.

A mulher deve ser incentivada desde muito cedo à sua autodescoberta individual. É importante que se ensine sobre intimidade e sobre a sexualidade que vai mais além dos genitais. O empoderamento começa no conhecimento. Acrescentando que neste conhecimento, os profissionais de saúde têm um papel ativo no que toca ao ensino e que a literacia corporal é de tamanha importância.

Promover o empowerment passa por dizer à mulher que ela tem o poder de decidir e de escolher de forma autónoma e livre sobre aquilo que acontece na sua vida. Ou seja, a mulher deve ser ajudada a tomar decisões conscientes, informadas e empoderadas, ao mesmo passo que deve ser promovido o parto natural e humanizado, deixando de parte todos os procedimentos que possam ser traumáticos e que deixam marcas no corpo na mulher e do bebé. A mulher sabe parir a partir do momento em que toma o seu corpo como parte da sua força e do seu poder.

 

Seja mulher ou homem, importa a união, a igualdade de sexo e de género e a consciencialização do corpo como instrumento poderoso e sábio.

Que a voz dos nossos corpos se faça ouvir.

 

Com Amor,

Carina
Escrevi 16 páginas sobre este tema (que não cabiam aqui, e por isso resumi a mensagem que queria passar) e foi bastante interessante a leitura dos artigos encontrados. Deixo aqui as referências bibliográficas:
1. Almeida L. Uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher: representações sociais do corpo feminino. Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações. Brasília-DF. Universidade de Brasília. 2009. Disponível em: https://repositorio.unb.br/handle/10482/4697
2. Boris B, Cesídio H. Mulher, corpo e subjetividade: uma análise desde o patriarcado à contemporaneidade. Revista Mal-estar e Subjetividade. Fortaleza. 2007. Vol. VII – Nº 2 – p. 451-478. Disponível em: https://www.redalyc.org/articulo.oa?id=27170212
3. Castro S. Os impasses do feminismo contemporâneo: identidade e diferença. Journal of Studies on Citizenship and Sustainability. Brasil. Universidade Federal do Rio de Janeiro. 2017. Disponível em: http://civemorum.com.pt/artigos/1/JSCS.2_SCastro_p113.122.pdf
4. França K, Brauner M. O corpo feminino sob uma perspectiva foucaultiana: rumo à construção dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres no brasil. Universidade Federal do Rio Grande. 2018. Disponível em: https://7seminario.furg.br/images/arquivo/236.pdf
5. Lemos S. Relatório de Estágio apresentado à Universidade da Madeira para obtenção do Grau de Mestre em Ensino de Artes Visuais no 3º Ciclo do Ensino Básico e no Ensino Secundário. Universidade da Madeira. Centro de Competência de Artes e Humanidades. 2010.
6. Lobo C. Mulher inessencial, mas mulher: Feminismo, Wittgenstein e o problema da diferença. Dissertação de Mestrado em Filosofia Especialidade de Filosofia Política. Lisboa. Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. 2019. Disponível em: https://run.unl.pt/bitstream/10362/77692/1/Mulher%20inessencial%2C%20mas%20mulher%20Feminismo%2C%20Wittgenstein%20e%20o%20problema%20da%20diferen%C3%A7a.pdf
7. Pinheiro L. Os Dilemas da Construção do Sujeito no Feminismo da PósModernidade. 2210 Texto para discussão. Rio de Janeiro. 2016. Disponível em: http://repositorio.ipea.gov.br/bitstream/11058/6864/1/TD_2210.pdf
8. Rabelo A. Cuidado de si de Enfermeiras Obstétricas: decisões sobre seus corpos e vidas. Pós-Graduação em Enfermagem. Belo Horizonte. Universidade Federal de Minas Gerais. 2016. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/handle/1843/ANDO-AK9Q92
9. Scavone L. Nosso corpo nos pertence? Discursos feministas do corpo. Niterói. 2010. v. 10, n. 2, p. 47-62, 1. Disponível em:
https://repositorio.unesp.br/handle/11449/125020
10. Shabot C. Making Loud Bodies ‘‘Feminine’’: A FeministPhenomenological Analysis of Obstetric Violence. Israel. University of Haif. 2015. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/283286083_Making_Loud_Bodies_Feminine_A_FeministPhenomenological_Analysis_of_Obstetric_Violence
11. Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres. Disponível em: https://plataformamulheres.org.pt/

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