Se se define o ser humano pela experiência, ou seja, pela sua maneira própria de representar o mundo…um ser humano sem sistema sexual é tão incompreensível quanto um ser humano sem pensamento. Há osmose entre sexualidade e existência. A sexualidade é todo o nosso ser. 
(Merleau Ponty, 1975)

A sexualidade é a energia que nos liga à vida.
Sexo. Canal vaginal. Sangue. Fluídos. Cheiros e sensações.

Digam o que disserem, o bebé nasce a partir de uma energia sexual. E isso ninguém pode interferir.

A sua primeira experiência nasce consigo e mostra-o à vida. Sente o cheiro da vagina, da vulva e muitas vezes diz olá ao ânus. Lambe e chucha as mamas que tanto o nutrem. O seu cérebrozinho completamente inocente só quer amor. Nutrição. Deixem-se de tretas quando afastam os bebés destas zonas que são tabus para quem as tem. O bebé não sabe se é sexual ou não. Só quer ser amado e ser aceite.

Educar para a sexualidade é educar para o respeito no corpo. Literacia corporal. Empoderamento. Conexão. Amor-próprio.

Educar para a sexualidade é educar para a vida. É educar para gerações futuras mais conscientes.

Quantas crianças vivem alienadas do seu próprio corpo? Quantas crianças sofrem de bulling, maus tratos e violência/assédio sexual?

Não. Não há educação que valha quando em casa o corpo é visto como algo proibido. A nudez é desrespeito. A exploração é culpa. A inocência é perversão.

As crianças adoram andar nuas. As crianças adoram tocar. Explorar. Levar à boca. As crianças são inocentes. Fazem-no apenas, porque estão a descobrir-se. Por favor não lhes tirem isso. Não lhes cortem as asas do conhecimento. Crescimento. Desenvolvimento. Amor.

Expliquem-lhes. Eduquem. Ensinem.

Quando uma menina toca na sua vulva ou se roça nalgum sítio, não quer dizer que vá ser perversa ou algo do género. Está a suprimir uma necessidade e a partir à descoberta do desconhecido. Ao invés de julgar, discutir, proibir e até bater, expliquem onde e quando pode fazê-lo e sobre o porquê de tal estar a acontecer. Quando um menino está ereto ou a brincar com o seu pénis, não lhes digam que é garanhão e que irá ter várias namoradas ou algo do género! Ensinem o porquê do que está a acontecer e também os sítios indicados onde pode e deve fazê-lo, respeitando-se a si e também às outras meninas/meninos.

Da mesma forma em que se a criança está a tocar  nos seus órgãos genitais e o adulto lhe dá uma palmada na mão e lhe diz “deixa de fazer porcarias”, está assim, a castigar um comportamento, atribuindo-lhe um significado negativo: é algo proibido e sujo e por isso devo sentir culpa.

Quantas adolescentes me dizem: “então os meus pais não me explicam em casa e até fogem ao assunto, então eu vou procurar por mim!; proíbem-me de mexer no corpo e de estar com rapazes/raparigas, mas isso é pior.”

Já ouvi dizer que “o fruto proibido é o mais apetecido”.

Malta começa por nós! Pais e futuros pais! Não são os filhos que não sabem lidar com a sua sexualidade, fomos nós que não os soubemos educar, porque não estamos preparados para isso.

Enquanto os pais/educadores não sentirem a sexualidade como parte integrante e essencial da vida e, por sua vez, não desconstruírem os próprios pré-conceitos, os nossos bebés irão crescer num ambiente de negação do corpo e a sexualidade não será vivida em pleno. Muitas vezes a procura de vários parceiros e os “acidentes” são consequências de uma falta de autoestima gigante e também necessidade de ser aceite. Há uma carência emocional que será suprimida (provisoriamente) nesse momento.

Portanto: esconder e negar a sexualidade às crianças terá impacto no seu desenvolvimento futuro.

Please: a sexualidade e o sexo não são um bicho papão! Por favor deixem que se fale nisso na nossa sociedade! E não basta apenas falar dos órgãos sexuais, da pílula, do preservativo e da gravidez. A educação sexual não se baseia na reprodução! É preciso falar sobre o prazer sexual! Sobre o corpo, masturbação, intimidade, relacionamentos e prevenção de abusos. Na prevenção é que está o ganho! As crianças constroem as suas próprias teorias sexuais.

Também frisar que as crianças, especialmente na idade em que estão dependentes dos adultos, não lhes basta uma informação sexual adequada, é necessário que vejam que os modelos com os quais se identificam vivem a sua sexualidade com naturalidade, alegria e prazer. Se nos centramos exclusivamente na boa informação sexual, mantendo um mundo em que esta dimensão humana é reprimida, comercializada e não valorizada, a informação sexual cairá no vazio e contribui para agudizar as contradições da organização social da sexualidade.

Os pais são então o exemplo. O modelo de observação. Do que vale falar com as crianças acerca da igualdade entre os sexos se o pai mantém relações de exploração e autoritarismo com a mãe? Como entenderão as crianças que a sexualidade nos oferece possibilidades de dar e receber prazer, ternura, afeto e comunicação se observam e vivem em casa um sistema de relações violento, frio, rígido e hostil? Os pais devem ser congruentes no que ensinam.

Educar para a sexualidade/intimidade de forma saudável é também ensinar sobre uma primeira linguagem com mais amor.

______

p.s – esta imagem hoje mostra o meu sentir. Toca-me no corpo. Mostra o meu prazer na vida. Na sexualidade.
Mostra uma mulher que foi obrigada a reprimir a sua sexualidade. A negar o seu prazer. A esconder o seu corpo. E que aprendeu sozinha neste longo e árduo (mas leve) caminho que é na sexualidade que está a força da vida.

Não há necessidade disto. Por isso, mais uma vez, pais e futuros pais, vamos tornar o mundo num lugar com mais amor, a partir de cada lar. A partir de cada escola do amor.

 

Com Amor,

Carina

Deixe o seu comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *